O CAVALO DE CALÍGULA E O SENADO BRASILEIRO.

"A primeira condição para se melhorar a situação presente é estar-se bem consciente de sua enorme dificuldade. Só assim se poderá atacar o mal nas profundezas de onde se origina verdadeiramente." – Ortega y Gasset. A rebelião das massas.

 

Embora Nero seja injustamente considerado o vilão da História romana, pois, além de bom administrador, não incendiou Roma, mas apenas tocou sua cítara enquanto ela ardia, a alma danada foi Calígula, um psicopata de carteirinha que, dentre outras coisas piores, pretendeu fazer senador seu cavalo Incitatus, tal era o desprezo que lhe causava o senado romano, desprezo esse, aliás, então merecido pela baixeza a que aquele colegiado havia descido, mas que, todavia, mandou assassinar Calígula, em um ato também ilícito, malgrado as biografias dos assassinos e do assassinado. Biografias não importam nada quando se trate de ilícitos.

 

Posso estar sendo ácido, mas penso que hoje, a indicação de Incitatus para o Senado brasileiro não causaria tanto espanto, pois, até onde se tem notícia, cavalos não praticam atos a-éticos, não desviam dinheiro público e nem nomeiam parentes através de atos secretos. Talvez por isso o falecido general Figueiredo preferisse o cheiro dos cavalos ao dos homens...

 

Ironias à parte, o Senado brasileiro, pelos ilustres senadores que o compõem, desceu a um nível tão baixo que se pode, hoje, questionar a necessidade da sua existência e pensar na sua superfluidade, coisa que para mim sempre ocorreu. O Senado brasileiro é desnecessário e caríssimo, sendo que agora mostra-se pernicioso e, por isso mesmo inútil, merecendo ser extinto em uma reforma profunda do estamento político brasileiro.

 

Pernicioso não somente porque esbanja dinheiro do povo em atos secretos, que em qualquer país sério levariam todos seus co-autores à prisão, mas, principalmente, porque está destruindo o que restava de ideário ético na cabeça do homem do povo, que deve perguntar-se: por que deve ser honesto se os senadores não o são? Esse homem médio, que constitui a “massa” a que se referiu Ortega y Gasset, pensa de acordo com a maioria dos nossos políticos, o que no Brasil de hoje, significa, - salvo as exceções, se existirem – pensar em tirar o máximo proveito de todas as oportunidades, sem qualquer consideração com a sua licitude.

 

O pior é que ainda temos que assistir às falações de nosso ilustradíssimo presidente, quando diz que é preciso considerar a biografia das pessoas que se locupletam com o dinheirinho suado dos impostos. Presidente: biografias são escritas pelos biografados, considerando-se como “escrever” a inserção, no mundo, dos comportamentos de tais pessoas. Por isso, cuide da sua própria biografia.

Ninguém, presidente, está acima da lei, seja ele senador ou modesto e honesto lixeiro, desses que devolvem o dinheiro que encontram na lata de lixo. Por isso o Brasil constituiu-se em uma república, já que nas monarquias há pessoas mais “iguais” do que as outras. Nego-me a fazer parte de uma “segunda classe” em cuja primeira estejam incluídos os nossos senadores. Talvez Calígula tivesse razão... Quem diria!

 

Rubens Miranda de Carvalho.

Advogado e mestre em Direito.

rubens@advogadosmcg.com.br

 

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